Vogue Portugal

2016

Carlota Morais Pires

Drama king

De tempos a tempos, um novo designer vem relembrar-nos que a Moda é puro sonho e fantasia. Será agora a vez do português David Ferreira? Em Londres, a Vogue falou com o designer que acaba de ser premiado com um Fashion Scout Merit Award.

Quando as altíssimas e pesadas portas do imponente Freemason’s Hall, em Covent Garden, finalmente se abriram e deixaram entrar os jornalistas que esperavam impacientemente à chuva, as manequins de plástico, inanimadas no centro do enorme salão, deixaram para trás qualquer memória de um céu cinzento. À medida que nos aproximámos, as silhuetas volumosas, plumas, ombros exagerados e cetim cor de sangue que vestiam lembravam-nos que a Moda pode e deve ser sonho.

Ao lado, David Ferreira, o criador, conta num sorriso o ainda curto percurso que o levou até ali e a história de como, aos 25 anos, venceu o aclamado prémio Fashion Scout Merit Award, atribuído em edições passadas a designers como David Koma e Phoebe English. “Sempre soube que queria ser designer de Moda e aos 20 anos tomei a decisão de vir viver para Londres”. Durante um ano experimentou as várias áreas que fazem parte do curso Foundation in Art and Designda Central Saint Martins mas, quando fez as entrevistas para entrar para a universidade, escolheu Westminster. “Queria aprender sobre todas as áreas e Westminster deu-me isso, enquanto a Central Saint Martins nos dá apenas a hipótese de nos especializarmos em têxteis ou padrões, por exemplo. Durante a licenciatura tive aulas de alfaiataria e fiz peças masculinas, o que foi importante para conseguir trabalhar na estrutura dos fatos femininos”, explica.

A sua coleção de final de curso, uma explosão de criatividade numa nuvem amarela de volume e texturas, foi apresentada em Nova Iorque, no concurso Vfiles Made Fashion, que David ganhou. Semanas antes de se formar já tinha sido contactado pela V Magazine para produzir uma peça especificamente para um editorial da revista. Para David, é a sua abordagem inesperada à Alta-Costura que torna as suas peças especiais e que tem atraído a atenção da imprensa e dos buyers. “Depois de ter apresentado a minha coleção em Nova Iorque disseram-me que podia ser difícil vender as peças mais dramáticas. Mas são precisamente essas que estão a ter mais procura, principalmente por compradores da Arábia Saudita e de países asiáticos”, revelou o designer.

Agora, e na sequência do Fashion Scout Merit Award que reconhece o seu ainda recente trabalho, David Ferreira está a apresentar a sua segunda coleção na semana de Moda de Londres. “Esta é uma cidade com uma grande abertura para o design conceptual e, também por isso, é mais fácil que a imprensa e os compradores compreendam a minha perspetiva. Por incrível que pareça, Nova Iorque ainda está muito direcionada para a vertente comercial e para o conceito do ready-to-wear – questiona-se muito se uma peça se vai vender ou não e se as pessoas vão querer vesti-la. Essa nunca é a minha primeira pergunta quando começo uma coleção.”, remata o criador.

O instinto diz-lhe para não impor limites à imaginação, e talvez seja esta autenticidade que está a atrair a atenção de uma indústria cansada da monotonia da repetição e presa nas malhas do marketing e dos departamentos comerciais. As peças de David Ferreira são livres das imposições e constrangimentos que surgem naturalmente com o crescimento de uma marca – e isso é visível a olho nu, na excentricidade das formas, na modernidade das suas criações e também na espontaneidade como se expressa e fala do que quer fazer e onde quer chegar. Está focado em conservar a pureza da sua visão, mas também em exceder-se a nível técnico.

O jornal New York Observer comparou-o a John Galliano e as vozes na sala relembraram Alexander McQueen, a forma como veio injectar uma nova dose de fantasia na Moda e inaugurou um novo ciclo. Se David Ferreira vai seguir os mesmos passos não sabemos, mas o espetáculo tem de continuar – e esta pode ser a sua oportunidade de subir ao palco.